quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma visão sobre lado otimista das catástrofes

Por Fabiano Rangel
Blog: Sustentabilidade em Movimento
Data: 16/06/2010

Mesmo que por vezes pareça quase impossível, precisamos encontrar otimismo em tudo que fazemos, sob pena de pararmos processos que na sua essência seguem em movimento, ainda que por vezes a coisa pareça uma enorme “maré negra manchada de óleo”. O incidente da BP que causou enormes danos, muitos ainda não mensurados, parece trazer uma vertente esperançosa.

O anuncio realizado ontem pelo presidente dos EUA Barack Obama, traz certa ênfase não apenas nas ações de indenização e reconstrução da bacia do Golfo prejudicada pelo acidente, como coloca em evidência a necessidade emergente dos Estados Unidos buscar fontes energéticas de baixo carbono e que ofereçam menor risco as pessoas e ao meio ambiente.

Segundo matéria da revista Época Negócios, versão on line, publicada hoje (16/06/2010), Obama em plano salão Oval da Casa Branca afirmou que em breve será possível recuperar cerca de 90% do petróleo derramado e a mais, enveredou esforços para esclarecer a sociedade norte americana sobre a criação de uma lei capaz de incentivar o desenvolvimento de fontes de energia alternativa.

Após resistências históricas e homéricas, parece que fato provocado com o acidente da BP fez a “água passar do pesco” da nação norte americana, e isso, a princípio está forçando um pouco mais os EUA a assumir um posicionamento diante da necessidade de se desenvolver uma econômica de baixo carbono.

Caso a proposta realmente avance teremos muito a comemorar, porque, o mundo ainda é “norteado” e, portanto, segue as tendências colocadas pela nação do norte. De qualquer forma lamentamos que muitos estragos tenham que acontecer para que algumas desafios da nossa sociedade avancem.

Quem sabe essa lição também nos inspire mais, precisamos criar uma cultura mais preventiva, pauta por uma ética mais coletiva, em que possamos agir sob os riscos e não após a efetivação do dano. Está ai um bom ponto de reflexão para pessoas a frente de políticas públicas e organizações empresariais para que possamos avançar ainda mais, nesse movimento para construção de uma sociedade mais justa, responsável e sustentável.



Obama promete conter na próxima semana 90% do petróleo do golfo

Americano se reúne com o presidente da BP para discutir fundo de ressarcimento de prejuízos
Por Agência EFE

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou ontem que nas próximas semanas será possível recuperar 90% do petróleo que emana do poço da BP no Golfo do México. Em discurso à nação direto do Salão Oval, Obama buscou informar aos americanos do real estado da catástrofe, falar sobre eventuais ressarcimentos e esclarecer a ideia de uma nova lei de energia que incentive o investimento em fontes alternativas.

O presidente americano comparou o desastre com "uma epidemia", que não causa danos em questão de minutos ou dias. "Estaremos combatendo (a catástrofe) durante meses e anos", afirmou. Obama assegurou que seu governo combaterá as consequências do desastre durante o tempo que for necessário e que a BP terá que ressarcir por todos os danos causados.

E explicou que, desde o começo da crise, o governo federal lançou o "maior esforço de limpeza meio ambiental" da história do país, que conta com 30 mil pessoas em quatro estados para combater a maré negra.

Hoje, Obama se reunirá com o presidente da BP, a quem disse que dará instruções para que crie um fundo que compense os trabalhadores e empresários prejudicados economicamente pelo desastre. O fundo, como ressaltou, não será controlado pela BP, mas administrado de maneira independente.

Obama anunciou também um plano a longo prazo para a recuperação do Golfo do México, uma área que, como explicou, ainda não se recuperou totalmente do furacão "Katrina". O plano será arquitetado pelos estados, comunidades locais e residentes do golfo. O comando ficará com o secretário da Marinha, Ray Mabus, ex-governador do Mississipi, uma das regiões mais atingidas pelo petróleo.

O presidente americano disse ainda que o país deve trabalhar para evitar que um incidente do tipo aconteça de novo. E para isso, como frisou, foi criada uma comissão nacional para investigar as causas do desastre e dar recomendações sobre medidas a serem tomadas.

Fonte: Época Negócios (On line)
Link: http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI147956-16381,00-OBAMA%20PROMETE%20CONTER%20NA%20PROXIMA%20SEMANA%20DO%20PETROLEO%20DO%20GOLFO.html
Data: 16/06/2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O que o desastre da BP pode nos ensinar o sobre a tomada de decisão das pessoas nas organizações?

Por Fabiano Rangel
Blog: Sustentabilidade em Movimento
Data 09/06/2010

O desastre socioambiental ocorrido (abril/2101) no Golfo do México, em que teve como protagonista a corporação britânica Britsh Petroleum ou Beyond Petroleum (BP), mais uma vez coloca em cheque a forma como grandes organizações têm dialogado com as demandas da sociedade e o quanto estão ou não investindo realmente em modelos de negócios mais responsável, justo e sustentável.

Este foi um desastre de proporções catastróficas e ao que tudo indica deixará o episódio de 1989 com o Exxol Valdez (derramou mais de 40 milhões de litros óleo na costa do Alasca) para trás de longe. Sendo que ainda hoje a fauna marinha da região do Alasca sofre com o acidente ocorrido há mais de 21 anos.

Muito provavelmente o recente acidente com a plataforma Deepwater Horizon não será diferente. Após um incêndio que durou cerca de dois dias a plataforma explodiu, vitimando 11 funcionários e despejando sobre o mar milhões de litros de óleos (os dados oficiais estimam cerca de 5.000 barris diários). Ainda é cedo para precisar quão comprometida será a fauna marinha da região, mas com certeza não será em proporções irrelevantes e junto com esse comprometimento, muitas pessoas que vivem da pesca e de outros recursos e serviços ofertados pela vida marinha também serão seriamente prejudicadas. Atualmente pescadores da região deixaram seu principal ofício para trabalhar nas embarcações de contenção do óleo, expondo suas vidas e saúde a riscos desconhecidos.

A costa da Lousiana, provavelmente será a mais afetada. Inicialmente se estima um prejuízo nessa região de U$2,5 bilhões só com a indústria da pesca, além do impacto no turismo. No litoral da Flórida já se estima um prejuízo na cifra de U$3 bilhões.

O chefe de operações da BP, Doug Suttles, já declarou que a empresa tem gastado certa de U$6 milhões por dia para tentar limpar a mancha de petróleo que se arrasta pelo Golfo do México além de tentar conter o vazamento. No mercado de capitais as ações da BP já apresentaram quedas de mais 7% desde o vazamento.

Algumas declarações dos executivos da BP, de ex-executivos e de fontes da mídia alternativa trazem a tona que o risco de um acidente dessa natureza era alto e de conhecimento de muitos dos engenheiros e executivos responsáveis pela operação. A falta de manutenção e uso de material não apropriado para o tipo de operação foram apontados nos últimos relatórios anuais, mas pelo que tudo indicam foram ignorados por alguns tomadores de decisão e pelo visto, também por investidores (considerando a posição favorável que a BP tinha no mercado de capitais antes do acidente). Então, por que mesmo sabendo dos riscos a operação teve continuidade? Por que não se paralisou a operação até que os riscos fossem novamente gerenciados a quase zero?

Se medidas dessa natureza tivessem sido tomadas, poderíamos estar diante de um case de sucesso e não de um acidente. Estaríamos então diante um evidente caso de negligência empresarial? Diria que sim, mas não apenas, afinal organizações e empresas não são uma entidade etérea, sem cheiro, cor, carne, corpo e face onde podemos colocar toda a responsabilidade, até porque seria cômodo colocar a responsabilidade nesse ente etéreo. Como responsabilizar uma empresa neste caso? Só financeiramente? Isso seria uma medida suficiente? Uma organização só tem vida e existência porque tem pessoas fazendo a sua gestão e tomando decisões. Porque tem gente usufruíndo dos bens e serviços que a organização produtos e porque tem gente investindo na sua atividade.


É evidente que existiu uma negligência da BP, e ela está no fato de suas políticas e processos não terem sido suficientes para detectar as falhas existentes, como, por exemplo, o fato dos responsáveis ignorarem os relatórios operacionais que apontavam riscos eminentes, mas acima disso, temos a negligências das pessoas que tomaram suas decisões com base em valores frágeis no que diz respeito aos valores universais direitos humanos e da responsabilidade com a vida, isso sem contar a própria sustentabilidade financeira da organização, tendo visto o alto volume de recursos que foram e serão alocados para contornar o problema. Imagina todo esse recurso sendo empregado no desenvolvimento de novas tecnologias energéticas com capacidade de promover uma economia de baixo carbono? Ou mesmo na melhoria da operação da BP para torná-la mais eficiente e segura?

Existem muitas perguntas e muitas respostas podem soar simples. Até poderíam existir respostas simples, mas deixamos a coisa um pouco mais complexa, pois existem muitos elementos culturais e políticos que deixam qualquer resposta para questões dessa natureza complexa e de difícil resolução. Principalmente quando se observa toda a dinâmica econômica e social que há por traz da indústria do petróleo e mais, quando nos colocamos diante do problema e percebemos nossa forte dependência do insumo e seus derivados. Na mesma linha de raciocínio também não é simples de se explicar a nossa dificuldade em ter mais investimento em tecnologias para melhorar a eficiência energética das nossas máquinas e veículos em pleno século XXI. Como isso pode ser tão difícil se há muito tempo já conseguimos colocar o homem na lua? Com certeza não é por falta de inteligência e tecnologia.


Vivemos em uma sociedade com muitos paradoxos mal resolvidos.

Tão complexa é essa resposta que mesmo no auge do furacão, quando a BP ainda está tentando responder como irá minimizar os danos causados pelo acidente, seu executivo chefe também está realizando inúmeros malabarismos para assegurar duas respostas ao mercado: primeiro, assegurar a imagem de uma empresa solida capaz de suportar toda a pressão financeira; segundo de que tentará encontrar meios de remunerar seus acionistas e investidores a contento, mesmo com tantas outras prioridades. Sei que parece estranho, mas neste momento me pergunto se essa não deveria ser uma preocupação colocada em segundo o terceiro plano.

O bom senso me ajudaria a responder que sim, contudo, se o bom senso fosse observado, provavelmente a operação teria sido paralisada muito antes do acidente e não seria necessário fazer essa pergunta. A necessidade de justificar os dividendos segue a mesma lógica que boa parte das respostas que encontraremos para não paralisar a operação.

Contudo, nossas empresas e executivos estão cada vez mais responsáveis, a BP por exemplo, exemplo, que em um ato de extrema fraternidade e compromisso social por meio de seu CEO, Tony Hayward, anunciou que assumirá integralmente todos os danos decorrentes do acidente que forem comprovados e mais, segundo a matéria da UOL Notícias que acompanha esse comentário, a BP irá criar uma nova empresa só para administrar os danos decorrentes do vazamento. Será mesmo que estamos cada vez mais responsáveis? E nossas organizações? Nosso mercado de capitais? Por que todo esse cuidado não foi tomado antes? Não havia recursos para isso?

O mais irônico é que esse acidente aconteceu justamente com a BP, uma das pioneiras no segmento de Óleo e Gás a se rever e se posicionar diante da sociedade como uma empresa de energia e não apenas de extração e refino de petróleo e gás (não sei se alguém já viu alguma história parecida em algum outro lugar).

Não faz muito tempo que a BP assumiu publicamente a alto nível de contribuição do seu principal produto para o atual cenário de aquecimento global que vivenciamos. Assim, desde o início da década de 90, tem empreendido alguns esforços para se reposicionar como uma empresa de energia, buscando investir mais em fontes energéticas de menor impacto socioambiental, tendo seu relatório de sustentabilidade de 2006 reconhecido pelo GRI como um exemplo a ser seguido pelo setor. Neste relatório a BP ousou e abriu pontos sensíveis como demissões, desmatamento, emissões de CO2, explosão de uma refinaria e tudo isso com apresentação de detalhes e estatísticas.

Notem que no relatório de sustentabilidade de 2006 a BP já havia relatado um acidente grave em uma refinaria no Texas ocorrido em 2005. Estamos falando de cinco anos do último acidente grave ao de agora com a plataforma Deepwater Horizon e isso em meio a um grande esforço para tornar a BP reconhecida como uma empresa de energia mais responsável e sustentável em âmbito global. Então o que aconteceu?

Seria muita pretensão da minha parte querer responder prontamente a essa pergunta. Contudo, uma coisa eu posso inferir, nossas organizações empresariais sofrem de uma arrogância contraproducente e isso acaba somatizando sobre as pessoas que as representam, empresas e pessoas diante da necessidade de se mostrarem sólidas, auto-suficientes e agora sustentáveis, não trabalham bem os valores pessoais e organizacionais que poderiam fazer a diferença, não fazem um uso estratégico e adequado de ferramentas disponíveis como, por exemplo, o GRI (só para pountuar considerando que essa é uma ferramenta usada por eles) e não incorporam essas premissas na hora de decidir quais riscos podem e devem ser assumidos, quais processos precisam ser melhorados e o mais difícil, decidir quando é hora de rever alguns passos e re-orientar trajetórias, principalmente quando isso pode implicar em uma possível revisão na projeção de crescimento da empresa.

Como a sustentabilidade desejada é esse processo em movimento, portanto não temos todas as respostas e como ainda há tempo (pouco) de aprender com nossos erros, vou torcer e continuar trabalhando para que nossas organizações e nós enquanto profissionais que as representam, tenhamos a humildade de aprender com essa triste catástrofe e fazer diferente e melhor em novas oportunidades.



BP deve criar empresa para cuidar dos efeitos do vazamento no Golfo do México

Fonte: UOL Notícias
04/06/2010 - 14h12 / Atualizada 04/06/2010 - 14h29

Londres, 4 jun (EFE).- A companhia petrolífera britânica British Petroleum (BP) anunciou hoje que pretende criar uma empresa encarregada especificamente de cuidar das tarefas de reparação e fazer frente aos efeitos do vazamento de petróleo ocorrido em uma de suas plataformas no Golfo do México.

O executivo-chefe da empresa, Tony Hayward, precisou em uma teleconferência com investidores que a nova entidade será dirigida pelo responsável na América pela BP, Bob Dudley, que velará pelo cumprimento de "todas as obrigações" da companhia.

Hayward assegurou que a nova empresa não irá fazer "uma reorganização de ativos", só de pessoas, de modo que o trabalho de resposta à catástrofe no Golfo do México possa ser separado da atividade normal da companhia petrolífera.

O diretor reiterou o "compromisso total" da BP para resolver a situação criada pelo acidente do dia 20 de abril na plataforma Deepwater Horizon, em que 11 pessoas morreram e que deu lugar a um vazamento de petróleo de consequências extremamente graves para o meio ambiente.

Hayward assegurou que neste momento é impossível prever o custo total para sanar o desastre, que, além da reparação da plataforma, incluirá a limpeza do entorno e as correspondentes indenizações e multas, mas adiantou que será "pesado".

No entanto, especificou que a empresa, que calcula perder bilhões de dólares em petróleo devido ao derrame, se encontra em uma posição financeira "sólida", tanto em liquidez como em ativos, para fazer frente às reivindicações.

O Governo americano disse ontem à noite que vai enviar a BP uma primeira fatura de US$ 69 milhões pelas tarefas de limpeza na área do Golfo, que a companhia deve pagar antes do próximo dia 1 de julho.

Quanto ao pagamento trimestral de dividendos, um assunto que preocupa muito os acionistas e, em consequência, as bolsas de valores, assinalou que a empresa tentará encontrar "um equilíbrio" entre suas obrigações com os investidores e sua necessidade de destinar dinheiro para resolver o vazamento e investir no futuro da companhia.

"Faremos o possível para proteger o valor da empresa na qual vocês investem", disse Hayward aos acionistas, mas não pode precisar se será cobrado um dividendo no prazo previsto de 22 de julho.

O presidente da BP, Carl-Henric Svanger, presente na teleconferência, indicou por sua vez que até essa data a empresa irá decidir qual é a melhor maneira de distribuir os recursos, levando em conta a inquietação manifestada pelos investidores.

O executivo-chefe reconheceu que o acidente aconteceu porque uma série de "processos, sistemas e equipamentos" que deveriam ter prevenido o desastre não funcionaram.

Nesse sentido, disse que o acidente é um sinal de alerta para toda a indústria e lembrou que a BP investirá US$ 500 milhões em pesquisa para melhorar a segurança.

É importante "recuperar a confiança" dos empregados (80 mil no total, 30% dos quais está nos EUA), dos investidores (com 40% nesse país), da
comunidade na zona do Golfo e em geral do mundo, já que disso depende o futuro da companhia, advertiu.

BP prometeu ir "além" do óleo, mas se afogou nele

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Parece irônico que o desastre do golfo ameace levar à bancarrota justamente a BP. Afinal, a britânica foi a primeira petroleira a jurar que iria "além do petróleo".

Há uma década, numa iniciativa de marketing de US$ 200 milhões, a British Petroleum encurtou seu nome para a sigla atual e adotou o slogan "Beyond Petroleum".

A ideia era reconhecer que, sim, óleo e gás ainda eram necessários, mas eram coisa do passado: o futuro pertencia às energias renováveis, como a eólica e a solar.

O logo da empresa foi substituído por um ecológico girassol estilizado. E seu executivo-chefe, John Browne, chegou a se juntar com o Greenpeace em 2002 para pedir a George W. Bush que ratificasse o Protocolo de Kyoto.

Anos antes, a BP já se destacara das irmãs ao reconhecer que a mudança climática era real (enquanto a Exxon financiava ataques ao IPCC).

Mas, no chão, os atos da BP diziam outra coisa. A empresa fez lobby pela perfuração do santuário ecológico do Alasca no mesmo ano em que mudava o logo. Em 2006, foi processada pelo vazamento de 1 milhão de litros de óleo na tundra.

Em 2008, o mesmo Greenpeace que fazia coro antibush com John Browne tentou entregar a seu sucessor, Tony Hayward, o troféu "Pincel de Esmeralda", por considerar a BP campeã da propaganda enganosa verde.

Apesar do discurso ambientalista, a BP investia só 1,39% de seus fundos em energia solar e 93% (US$ 20 bilhões) em óleo e gás.

SEM PLANO B

Aparentemente, nem um centavo desse dinheiro foi gasto no desenvolvimento de um método para conter vazamentos em águas profundas. E nisso a BP não está só.
"O estado da arte da indústria do petróleo não tem procedimentos para estancar um vazamento a 1.500 metros de profundidade", diz o engenheiro Segen Estefen, diretor de tecnologia e inovação da Coppe-UFRJ.

Isso vale também para a Petrobras. Depois do derrame de 2000 na baía da Guanabara, a empresa tem cuidado mais da segurança, diz Estefen. "Mas ela segue as tendências internacionais."

A Petrobras, ao se preparar para explorar o óleo do pré-sal em águas muito mais profundas que as do golfo, a até 2.500 metros, tem uma chance de se adiantar às "tendências" no quesito segurança.

Já a BP, se tivesse agido de acordo com o próprio marketing, não teria perdido um terço de seu valor de mercado. Talvez ainda ostentasse o epíteto "Beyond Petroleum" hoje misteriosamente desaparecido de seu site.

Fonte: Folha.com
Data: 06/06/2010
Link: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/746249-bp-prometeu-ir-alem-do-oleo-mas-se-afogou-nele.shtml

Uma história que a BP ainda não contou

Com exceção de algumas especulações, pouco tem sido publicado sobre o que a British Petroleum (BP) poderia ter feito para evitar o que talvez seja o maior acidente da história da exploração petrolífera. Em matéria veiculada pelo portal americano Climate Progress, foram divulgadas algumas informações ainda não reveladas pela BP. Um repórter do programa 60 minutes, da CBS, entrevistou especialistas que afirmam que a principal causa do acidente foi a negligência com os equipamentos envolvidos na extração do óleo.
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Segundo Robert Bea, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade da Califórnia, o problema começou com a própria área explorada, com um solo bastante instável e heterogêneo. A empresa, além de realizar a perfuração sem preparação técnica suficiente para contornar essas condições, teria concluído os trabalhos em muito pouco tempo, o que tornaria o projeto ainda mais passível de problemas. Bea já investigou mais de 20 vazamentos em plataformas de petróleo e foi contratado pela Casa Branca para ajudar na análise das causas do desastre do Golfo do México.


Outro problema apontado seria a falta de manutenção preventiva nos equipamentos subaquáticos. Ken Abbott, ex-gerente de operações na BP, afirmou que, na época em que trabalhava na companhia – há dois anos –, cerca de 89% das tubulações não eram checadas constantemente. Além disso, 95% dos equipamentos de extração nunca haviam sido verificados ou submetidos a testes depois que entraram em operação.

Abbott alertou a companhia sobre a necessidade da manutenção e o risco de acidentes, mas foi, segundo ele, “pressionado e repreendido” a abandonar essas ideias. Meses depois, foi demitido.
Outra polêmica levantada refere-se à vazão de óleo que vem sendo expelida desde o dia da explosão. A BP ainda não conseguiu estancar o vazamento que, segundo dados oficiais do governo e da própria companhia, alcança o correspondente a 5.000 barris diários. Mas cientistas estudaram as imagens do petróleo jorrando e deduziram um valor muito maior: estimam que 25.000 a 80.000 barris estejam sendo lançados no mar a cada dia. Esses últimos resultados corresponderiam proporcionalmente, em uma só semana, a dois acidentes como o da Exxon-Valdez, ocorrido em 1989 e considerado o mais grave da história petrolífera.


A BP tem se recusado a usar instrumentos mais sofisticados na detecção do volume de óleo em vazamento. Segundo Tom Mueller, porta-voz da companhia, “não podemos fazer qualquer esforço extra para calcular o fluxo lá neste momento. Não é relevante para o esforço de resposta, e pode até prejudicá-lo”.

O The New York Times reportou, na semana passada, uma enorme crosta de óleo em águas profundas com cerca de 16 km de comprimento, 5 km de largura e 90 metros de espessura, em alguns pontos. A descoberta dessas “bolhas” pode ser uma das provas de que o vazamento seja bem maior do que o anunciado pela BP e o governo. “Há uma quantidade enorme de petróleo em camadas múltiplas, três, quatro ou cinco camadas mais profundas da coluna d’água”, revela Samantha Joye, pesquisadora da Universidade da Geórgia.

O efeitos da concentração do petróleo já estão sendo sentidos pelas populações do litoral dos Estados Unidos, principalmente nos estados da Flórida, Alabama, Mississipi e Louisiana. Pescadores contratados pela BP para ajudar na captação e neutralização do óleo da superfície têm apresentado problemas de saúde decorrentes da alta exposição ao mineral. A BP assegura que não há necessidade de uso de respiradores ou outros equipamentos de proteção – mesmo com a forte atividade de vapores de hidrocarbonetos e dispersantes químicos pulverizados sobre o óleo.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos, no entanto, tem medido constantemente a qualidade do ar em uma comunidade costeira da Louisiana e detectado que os níveis de substâncias tóxicas, como sulfeto de hidrogênio e benzeno, já excederam, em algumas áreas, o limite de segurança para a exposição humana.

Data: 24/05/2010 - 17:02:39
Fonte primária: Página 22
Fonte secundária: Mercado Ético
Link: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/uma-historia-que-a-bp-ainda-nao-contou

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Voluntariado: um olhar sobre a realidade brasileira

O que é ser voluntário? É possível ser voluntário de uma organização empresarial? Quem ganha com o trabalho voluntário? Voluntariado faz parte do movimento de sustentabilidade?

Muitas são as perguntas e não há uma resposta fechada e nem precisa necessariamente ter. Acredito ser mais proveitoso e eficiente focar na construção de algumas trilhas para construir novas perguntas e perspectivas, do que necessariamente se prender na busca por respostas.

Começando pela última pergunta. A todo o momento, quando falamos da construção do desejado desenvolvimento sustentável, evocamos a participação e co-responsabilidade de todos para superarmos os inúmeros desafios da sociedade, portanto, quando alguém se dispõe voluntariamente a fazer algo em prol do bem comum por menor que seja se feito, se este feito estiver alinhado com princípios universais de direitos humanos e atento aos interesses legítimos da sociedade já estaremos diante de um mundo melhor acontecendo.

Segundo definição das Nações Unidas "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social, ou outros campos”. Portanto, não há regras para ser um voluntário, o que existe são princípios e os mais básicos são: se colocar a disposição do desejo de construir um mundo melhor; atentar para quem se quer fazer o bem para fazer bem; e buscar os interesses legítimos da sociedade, cuidando para que estes não sejam temerários aos princípios universais de direitos humanos, porque essa foi uma agenda que a sociedade mundial já convencionou como minimamente boa para todos.

“O voluntariado empresarial é um convite da pessoa jurídica à pessoa física para atuação conjunta e troca de experiências em prol do desenvolvimento sustentável numa ética de co-responsabilidade e de cuidado com a vida. É uma das formas de trabalhar a qualidade da relação com todos os públicos a partir de uma visão mais ampla de negócios que considerem interesses legítimos de todos. Voluntariado gera novos tipos de conexão que alimentam processos inovadores na rede de relações onde a empresa está inserida.” (Posicionamento da Txai Consultoria e Educação sobre o voluntariado corporativo).

Portanto, não há empresa voluntária, mas uma organização que identificou no voluntariado um jeito de contribuir com o desenvolvimento sustentável e na lógica da cooperação, elemento fundamental a sustentabilidade. Com isso, essa organização abre um convite para que seus colaboradores compartilhem desse desafio, tendo a chance de identificar no local em que trabalham e passam boa parte de seus dias, meios de explorarem o que há de melhor em seus valores pessoais e organizacionais, alcançando outras dimensões que não raramente também contribui para o desenvolvimento da sua atividade profissional e consequentemente, também contribui para o jeito de ser e fazer negócios da organização para qual trabalha.

Segundo dados do IBGE/2005, o Brasil contava com mais de 19.7 milhões de voluntários, sendo 53% homens e 47% mulheres.

Dados da pesquisa Ipso Marplan, realizada em 2004, com 50.250 pessoas, em nove centros urbanos, revelaram que os voluntários brasileiros apresentam altos índices de escolaridade, 43% possuem ensino superior completo, sendo que 23% alcançaram a pós-graduação. Nesta pesquisa as mulheres são maioria, com 53% do total, contra 47% de homens. (Fonte: Pesquisa Ipsos Marplan realizada com pessoas maiores de 13 anos em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza).

Outra pesquisa aponta que 31% dos voluntários são jovens entre 18 e 34 anos. Além disso, a pesquisa aponta que no Brasil, calcula-se que cada voluntário disponibiliza cerca de 74horas anuais a atividades voluntárias, o equivalente à 6 horas mês.

Outro dado que chama atenção são às áreas de atividades preferenciais pelos voluntários: 53% prestam serviços de limpeza e infra-estrutura; 15% atuam na captação de recursos; 14% atuam em atividades religiosas e; 18% em atividades de ensino e treinamento, apoio psicológico e aconselhamento, cuidados pessoais e serviços profissionais em geral. (Fonte: Doações e trabalho voluntário no Brasil. Uma pesquisa. De Leilah Landim e Maria Celi Scalon).

Os dados acima deixam claro que há muita gente fazendo um mundo melhor acontecer, muita gente ajudando o outro sem olhar a quem, dados que nos faz ter fé esperança nas pessoas. Contudo, para quem trabalha com a mobilização de voluntários seja dentro ou fora de uma organização empresarial, precisar saber e entender quem são seus voluntários, isso pode ajudar a tirar o melhor de sua capacidade e desejo de contribuição. Essa é uma das razões pelas quais levantar dados como esses são importantes, assim como realizar o monitoramente e avaliação de programas de voluntariado. Prática que tem se intensificado no meio empresarial.

Sustentabilidade em movimento é isso, um processo de engajamento em que as pessoas começam a identificar seus espaços de contribuição, “arregaçam as mangas” em busca de uma sociedade mais justa, responsável e sustentável para todos em todos os lugares.

Fabiano Rangel
Sócio Consultor da Txai Consultoria e Educação
Data: 03/06/2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Empresas firmam compromisso contra exploração sexual

No dia 18 de maio, o Brasil “celebra” o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a data foi escolhida para relembrar o caso da Araceli Cabrera Crespo, uma menina que antes de completar seus nove anos foi raptada, espancada, drogada, sexualmente violentada e depois morta. Esse crime hediondo, que ficou impune, aconteceu em 1973 e foi praticado por jovens da classe média na cidade de Vitória/ES.

Embora possa parecer algo isolado, milhares de crianças e adolescentes ainda sofrem dia a dia com a violência sexual, prova disso, são os milhares de denúncias recebidas pelo Ligue 100, um serviço de denúncia da Secretaria de Direitos Humanos. Estamos falando de uma grave violação de direitos que pode acontecer em diversos lugares, de diferentes formas e com a participação ou conivência de diferentes atores, inclusive do meio empresarial.

Do meio empresarial? Muitos podem se perguntar o que empresas têm haver com tamanha brutalidade? Respondo eu, muito. Não que uma empresa vá diretamente abusar ou violentar sexualmente uma criança e adolescente, mas dependendo da sua atividade e a forma com gerência suas operações e seus colaboradores, pode em alguma medida favorecer ou simplesmente facilitar essa grave violação de direito, apenas se colocando indiferente ao problema. A matéria que segue abaixo torna essa leitura bastante prática e concreta.

Para além da construção civil que o foco da matéria, outras atividades empresariais podem oferecer risco maior a exploração sexual de crianças e adolescente, como por exemplo: o steor de transporte rodoviário, estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços no entorno das estradas e rodovias, logística, portos marítimos, operadoras de turismo, redes hoteleiras, provedores de internet entre muitas outras.

Um dos grandes problemas para enfrentar esse grave problema social é que o tema ainda é visto com muito tabu, evitado pelas pessoas e consequentemente pelo meio empresarial. Organizações empresariais ignoram ou negam qualquer possibilidade de ocorrência de tal mazela na sua cadeia de valor. Quando isso acontece, quando o meio empresarial fecha suas portas para o diálogo e entendimento sobre essas questões, automaticamente está abrindo outra para que uma criança ou adolescente possivelmente tenha seus direitos fundamentais violentados e seu desenvolvimento comprometido.

“Se você é neutro em uma situação de injustiça você está do lado do opressor” (Desmond Tutu)

Não por outra razão que diferentes mecanismos de indução do mercado já estão incorporando a causa em seus processos de avaliação de uma gestão empresarial mais responsável e sustentável. São exemplos desses mecanismos o questionário de avaliação do Guia Exame de Sustentabilidade Empresarial (Editora Abril) e do Índice de Sustentabilidade Empresarial “ISE” (BMF/Bovespa).

Além destes mecanismos de avaliação da gestão empresarial, temos hoje O Pacto Empresarial Contra Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Estradas (
www.namaocerta.org.br), uma iniciativa da Childhood Brasil (www.wcf.org.br) e Instituto Ethos de Responsabilidade Social (www.ethos.org.br) e agora a Declaração de Compromissos em Grandes Obras lançada pela Secretária de Direitos Humanos, uma iniciativa mais do que necessária em função do processo de expansão e desenvolvimento que o país está experimentando e que será intensificado pelo PAC, pela Copa do Mundo de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016. Atrás de todo esse desenvolvimento há sempre um grande deslocamento de pessoas, na sua maioria homens e se essa questão não for bem gerenciada, muitas mazelas sociais também vão a reboque, entre eles a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Nossa expectativa e “torcida” é para que meio empresarial faça sua adesão a essas diretrizes e que a grande massa das empresas faça valer os compromissos assumidos.

Sustentabilidade é um processo em constante movimento, complexo e amplo que engloba os mais diferentes temas que primem pela saúde qualidade de vida e dignidade humana e da vida, portanto, novos temas e demandas surgem a cada dia e precisam ser incorporados por todos os atores que integram a sociedade.


Comentários: Fabiano Rangel
Data: 02/06/2010

Empresas firmam compromisso contra exploração sexual

BRASÍLIA - O enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes ganha mais um aliado. É a Declaração de Compromisso, a ser firmada por empresas responsáveis por grandes obras no país.

Uma articulação está sendo feita para que esse instrumento seja assinado e anunciado até o fim do mês, segundo informou a coordenadora do Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, da Secretaria de Direitos Humanos, Leila Paiva.

Estudos comprovam que a existência de grandes obras, como as do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e mesmo da Copa do Mundo, em áreas urbanas agrava a exploração sexual, principalmente de crianças e adolescentes. “Onde há um grande contingente masculino, migra uma série de redes de exploração que acabam tornando alvo crianças e adolescentes, porque são também alvos mais fáceis”, diz Leila Paiva

De acordo com ela, essas obras são extremamente necessárias, mas podem ter o impacto reduzido com a implementação de uma série de ações a serem desenvolvidas junto com a Comissão Especial de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. A Declaração de Compromisso, que também vem sendo chamada de Código de Ética, é a primeira delas.

A coordenadora espera que as empresas assinem o documento, a exemplo do que ocorreu na área de turismo. “Nós vamos integrar a declaração a instrumentos ou códigos éticos que já existem na empresa para pautar a questão do enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes”, enfatiza.

Em um segundo momento serão realizadas campanhas voltadas especificamente para os trabalhadores das obras, sensibilizando, mas também mostrando a legislação e quais são os mecanismos de repressão que existem para reduzir o problema.

A psicóloga Valéria Brahim, gerente de Programas sociais da Associação Brasileira Terra dos Homens , com sede no Rio de Janeiro, instituição parceira no projeto da Secretaria de Direitos Humanos, acredita que a exploração sexual é um tema invisível que precisa ser debatido com a sociedade.

Para ela, as empresas estão cada vez mais voltadas para a responsabilidade social. “ Se nós inserirmos esse tema na pauta das empresas, trabalhando em conjunto com a sociedade civil organizada e o governo o que está acontecendo dentro desse projeto, temos como solucionar ou pelo menos minimizar os efeitos dessa situação”, ressalta.

Pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que no Norte do país, a questão da exploração sexual é um problema ainda maior, principalmente pelas chamadas fronteiras secas, e também no Sul, no entorno de Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira.

Valéria Brahim esclarece que apesar de Foz de Iguaçu não estar recebendo uma nova obra, “existem impactos que vieram desde as obras de Itaipu. São locais em que percebemos grande impacto da exploração sexual”, afirma.

Em sua opinião, é necessária uma campanha com funcionários de canteiros de obras, principalmente aqueles que usam a menina como mercadoria.

Para denunciar a exploração sexual de crianças e adolescentes, a população tem o serviço Disque 100 ou os conselhos tutelares da região. Quando a situação de abuso for visível, pode contar ainda com a força policial.

O dia 18 de maio foi instituído pela Lei Federal 9970/00 como Dia Nacional de Luta Contra o Abuso e a Exploração sexual. A data foi escolhida para lembrar a morte, em 1973, em Vitória (ES), da menina Araceli, de apenas oito anos. Ela foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada e os responsáveis, jovens de classe média alta, ficaram impunes.

Fonte: DCI
Data:18/05/2010
Link:
http://www.dci.com.br/noticia.asp?id_editoria=3&id_noticia=327580